Ói o trem...
Acho que tenho uma quase fixação por meios de transporte coletivos. Talvez se deva ao fato de passar grande parte do meu dia na condução, mas muitas de minhas histórias favoritas – normalmente envolvendo gentes – têm esse cenário.
Nos últimos tempos venho descobrindo novas rotas pelos trens da cidade. Já devo ter embarcado em mais de 30 trens nos últimos dias, mas ainda não me acostumo com o desespero das pessoas por sair ou entrar do vagão (sempre inversamente ao que eu pretendo fazer no momento), às vezes pra ficar em pé. Será que é tão difícil entender que, se eu sair primeiro, haverá mais espaço do lado de dentro? Ou que não faz sentido se matar pra entrar e avançar somente uma estação se todos os lugares já estão ocupados?
Minha atração talvez se deva ao fato de que o trem – e outros veículos – funcionam como uma vitrine: os mais diversos tipos humanos passam por ali. Dia desses, foi o homem que passou a discutir conosco acerca da inviabilidade de se ter filhos rumo ao fim do mundo (sensatez ferina ao instinto maternal). Depois, outro ria-se sozinho com os monges franciscanos que andavam com os pés descalços: “São gringos, né? Porque brasileiro nenhum ia ‘tar andando descalço aqui!”
Vende-se bala “di catiguria”, chiclete, chocolate, amendoim, tesoura “que corta até cabelo” e, se bobear, até a mãe. E tudo a preços bem abaixo do que o menos ambicioso comerciante poderia praticar.
Se fala da vida alheia e da própria em um volume impraticável – justificado pelo barulho da composição – que torna o assunto compartilhado. Taí, mais um elemento de reunião.
Outrora, o público usuário dos trens foi mais homogêneo... Hoje, num tempo em que andar de carro é coisa de louco (pelo menos numa cidade como São Paulo), as cores se misturam mais. Gente com diferentes contas bancárias, desejos, jeitos e até cheiros (elemento importante a se considerar em conduções lotadas de fim de tarde) se juntam num outro trem, humano.
Escrito por Fernanda Senna às 13h20
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